ANALFABETISMO EMOCIONAL - Claudio de Moura Castro

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Analfabetismo emocional

Claudio de Moura Castro*

Há os que não conseguem decifrar a língua escrita, são os analfabetos. Outros entendem apenas textos simples, são os analfabetos funcionais. Falarei do que chamo de analfabeto emocional. É aquele que sabe ler, mas é presa das emoções para entender o texto, em vez de usar a razão. Faz uma leitura "criativa", embalada pelo sentimento e pela paixão. Decifra o texto por via de uma reação pura e espontânea, ignorando os estreitamentos de significado, impostos pelo sentido rigoroso das palavras escritas. A fim de ilustrar, utilizarei as cartas dos leitores acerca do meu ensaio "Os legisladores e o Verbo Divino" (12 de dezembro). Isso, por duas razões. Primeiro, por revelar-se uma boa amostra de leitura emocional. Segundo, porque muitas cartas são de professores e há uma corrente pedagógica pregando o subjetivismo e a liberdade do leitor para entender o texto como quiser. Será que alguns estariam ensinando tal estilo de leitura a seus alunos?

Como várias interpretações se deslocaram do que está escrito, vale resumir o ensaio: 1) Pesquisas se somam, mostrando que o número de alunos em sala de aula não tem correlação com o nível de aprendizado; 2) Portanto, não há base científica para uma lei nacional inventando um número-limite de alunos por sala; 3) Vários fatores determinam qualidade, mas, segundo as pesquisas, o tamanho das classes não é decisivo; 4) Há situações em que classes pequenas se justificam - inclusive por exigência do método empregado -, mas isso tem de ser demonstrado, casa a caso. O ensaio causou a "indignação" de vários leitores. Entendamos, as emoções fazem parte da vida. Mas podem estar no lugar certo ou errado. Insisto, antes da fúria, é preciso usar razão para entender o que está sendo dito. Faltou a muitos leitores (mas não a todos), a disciplina de seguir o raciocínio, entendendo a lógica do argumento. Por isso, discordam do que não está escrito.

Diante de uma pesquisa ( no caso, centenas), devemos sempre aplicar a dúvida sistemática de Descartes. Encontramos erro lógico no argumento? Encontramos falhas metodológicas na comprovação empírica? Modelo errado, dados errados? Se não conseguimos identificar falhas, acabou a munição. Gostando ou não, somos obrigados a engolir as conclusões da pesquisa. O debate científico não é minha opinião contra a sua, minha teoria contra a sua, mas sim minha evidência contra a sua. Vale o que revela o mundo real.

"Reputo como inválidos seus argumentos". A frase ilustra a confusão entre pesquisa científica e opinião. Vale "o que eu acho", "o que eu vivi", "o que eu sei". A observação pessoal é vista como sendo mais definitiva do que pesquisas submetidas ao duro crivo da ciência. Se fosse assim, por que fazer pesquisas rigorosas? Afinal, a pesquisa é para eliminar subjetivo, as ambiguidades e o particularismo dos casos. Busca-se nela decifrar as grandes forças em jogo, não os detalhes de cada situação. Várias cartas julgaram irrealistas os exemplos oferecidos. É o mesmo engano. Se o convencimento fosse pelos exemplos, para que pesquisa? O papel dos exemplos é facilitar a compreensão, é dar concretude. Não demonstram rigorosamente nada. Houve atribuições de culpa à falta de disciplina, ao calor, à desmotivação de alunos e professores, à promoção automática e a outras moléstias do cotidiano de uma escola. Mas ao se apontarem esses fatores, implicitamente, fica reforçada, e não negada, a tese do ensaio sobre a falta de centralidade do tamanho das classes.

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Para terminar, fui bombardeado com o clássico argumentum ad hominem, comum nesses debates. Em vez de se apontarem erros, denuncia-se o autor. Vejamos algumas farpas: economistas sucumbem à "retórica mercantilista ou a exercícios de adivinhação levianos"; "Dos seus escritórios com ar condicionado (...) fica mais fácil ter uma visão turva da realidade"; "Com certeza, o senhor nunca viu de perto escola pública" (não é verdade, mas no caso é irrelevante). Ora, uma característica essencial de um estudo científico é que sua validade não depende de quem o realizou, mas de ser metodologicamente inexpugnável.

*Claudio de Moura Castro é economista

Revista Veja edição 2307  06 de fevereiro de 2013

Exibições: 237

Tags: analfabetismo emocional, artigo, claudio de moura castro

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