AGRAL - Discurso de Posse do Bispo Diocesano de Itabuna na Academia Grapiúna de Letras

Foto:Jorge Bitencourt

Academia Grapiúna de Letras.

Pronunciamento do Acadêmico Dom Ceslau Stanula CSsR, Bispo de Itabuna, na Tomada de Posse da Cadeira 13 na Academia Grapiuna de Letras, dia 22 de maio de 2012.


Senhor Presidente
Senhores e Senhoras Acadêmicos
Senhores Padres, Diáconos
Minha Querida Madrinha Evanilda Matos com seu Esposo Diácono Ailton
Amigos e Amigas. Senhoras e Senhores.

Com muita honra e emoção, tomo a palavra, na presença dos meus colegas Acadêmicos e este publico seleto da sociedade itabunense. Não sei se saberei, eu velho missionário popular, expressar os meus sentimentos e pensamentos, adequados para a esta hora solene. Mas confio na benevolência dos prezados ouvintes.
Agradeço a Deus pelo momento que estamos vivendo e a todos os que estão neste momento aqui acompanhando nesta sessão solene a tomada de posse de dois Acadêmicos: Acadêmico Raimundo Dourado e a minha humilde pessoa.

1. O que é Academia de Letras.

Academia de Letras é uma instituição de cunho literário e lingüístico, que reúne uma quantidade limitada de membros efetivos, numa tradição iniciada no Século XVII com a Academia francesa. O termo "academia" remonta a Academia de Platão - escola fundada pelo célebre filósofo grego nos jardins que um dia teriam pertencido ao herói Akademus (donde vem o nome). Ali se buscava pela dialética socrática, o saber pelo questionamento e pelo debate.

2. Histórico

As primeiras academias de letras no Brasil foram, cito segundo o Prof. Dr. Mário Carabajal, o primeiro presidente de Academia de Letras do Brasil,
Academia Brasileira de Letras, fundada em 1724.
Academia dos Seletos, fundada em 1752
Academia Brasileira dos Renacidos, fundada em 1759.

Mas a instituição da Academia Brasileira de Letras remonta ao final do século XIX. Quando escritores e intelectuais brasileiros desejaram criar uma academia nacional nos moldes da Academia Francesa.
A iniciativa foi tomada por Lúcio de Mendonça, concretizada em reuniões preparatórias que se iniciaram em 15 de dezembro de 1896 sob a presidência de Machado de Assis (eleito por aclamação). Nessas reuniões, foram aprovados os estatutos da Academia Brasileira de Letras a 28 de janeiro de 1897, compondo-se o seu quadro de quarenta membros fundadores. A 20 de julho desse mesmo ano, era realizada a sessão inaugural, nas instalações do Pedagozium, prédio fronteiro ao Passeio Público, no centro do Rio.

Sem possuir sede própria nem recursos financeiros, as reuniões da Academia foram realizadas nas dependências do antigo Ginásio Nacional, no Salão Nobre do Ministério do Interior, no salão do Real Gabinete Português de Leitura, sobretudo para as sessões solenes. As sessões comuns sucediam-se no escritório de advocacia do Primeiro Secretário, Rodrigo Octávio, à rua da Quitanda, 47.
A partir de 1904. a Academia obteve a ala esquerda do Silogeu Brasileiro, um prédio governamental que abrigava outras instituições culturais, onde se manteve até à conquista da sua sede própria.
Em 1923, graças à iniciativa de seu presidente na época, Afrânio Peixoto e do então embaixador da França, Raymond Conty, o governo francês doou à Academia o prédio do Pavilhão Francês, edificado para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, erguido pelo arquiteto Ange-Jacques Gabriel, entre 1762 e 1768.

3. O Objetivo das Academias:

Os escritores brasileiros, através das academias, objetivam encontrar uma vertente literária própria, com identidade fixada na realidade dos problemas e da vida na América portuguesa.
As academias reuniam a elite culta da época, discutindo meios, soluções e perspectivas à evolução social, econômica e a partir do profundo conhecimento das múltiplas tendências segmentárias influenciadas pelas culturas dos colonizadores.
Hoje, segundo a escritora Ana Maria Machado, autora de mais que 100 publicações principalmente destinados para o mundo adolescente e infantil, a Presidente da Academia Brasileira de Letras numa entrevista concedida a ‘revista pontocom” declarou que desde o início, a Academia de Letras sempre buscou estar próxima da sociedade promovendo ações culturais acessíveis aos cidadãos.

4. O Valor da literatura e do livro

Estamos vivendo na mudança da época onde mais se aprecia o real, e o descartável. Os meios modernos de comunicação não deixam espaço para a pessoa imaginar, pensar, mas coloca tudo, o “prato feito”, para consumir e descartar. Estes meios (TV, Internet, You Tube etc.), nos convidam de participar do agora descartável que sufoca o indivíduo.
Podemos nos encontrar e concordar com as pessoas mais distantes geograficamente, mas raramente cruzamos o espelho para encontrar quem nós somos. Neste imenso pandemônio a literatura nos lega um necessário espaço de solidão.
Uma experiência de leitura será sempre um ato solitário, que faz com que o mundo externo, imediato, emudeça, e as vozes silenciosas dos livros se sobressaiam.
A literatura é um exercício profundo da imaginação e da criação.
A noção de realidade, de realidades múltiplas atingindo-nos em tempo real, nega as potencialidades da imaginação. Mesmo quando falseado pelos meios eletrônicos, o documento, ou a ilusão de estar diante de algo real, tomou o centro de nossas relações. E com isso, a arte se deixou confundir com informação, com interação, com depoimento.
Se tudo se manifesta ao vivo, se sempre há coisas acontecendo, se o real nos solicita a cada segundo, a literatura se oferece como espaço da solidão e também de imaginação.
Daí a urgência de resgatar os valores da imaginação. “O escritor e o artista não sabem, imaginam. A imaginação é o nome do conhecimento em arte” (Carlos Fuentes – Geografia do romance). A literatura não deve demonstrar nada o mundo, mas acrescentar algo a ele, por meio de um verbo - sonhar”.
O Escritos espanhol Miguel Cervantes, o autor de “El Quijote” disse sobre a influência e o objetivo que tem um livro, um escrito para a pessoa: Que leyendo vuestra História, el melancólico se mueva a risa; El risueño, la acreciente; El simple no se enfade; El discreto se admire de la invención; El grave no la desprecie ni El prudente deje de alabarla”. A leitura transforma o leitor em um cidadão mais livre, mais discreto e mais critico.
E estes sonhos dos escritores, poetas, profetas ou artistas sustentavam e ainda hoje sustentam a esperança do povo. Isto se chama o Messianismo. Quero me deter alguns minutos sobre a força messiânica da literatura e arte.


5. O Messianismo bíblico.

O messianismo seria uma crença, a esperança no advento de uma personalidade ou evento capaz de redimir pessoas e resolver problemas. O messianismo é, em termos restritos, a crença no divino - ou no retorno - de um enviado divino libertador, um messias [mashiah em hebraico, Christós em grego], com poderes e atribuições que aplicará ao cumprimento da causa de um povo ou um grupo oprimido.
No AT o mais clara a literatura messiânica encontramos no profeta Isaías, que na sua visão messiânica já anunciou que este Messias, Salvador nascerá de uma virgem e será Deus Conosco.
Na concepção cristã, a vinda do Messias realizou-se na pessoa de Jesus de Nazaré, cuja paixão e morte, em cumprimento da vontade do Pai, foi necessária à remissão dos pecados e redenção do gênero humano.
A função dos profetas foi a manter a esperança no povo eleito de que Deus cumprirá a sua palavra e mandara o Salvador que transformará a opressão em alegria, desordem em harmonia entre a natureza e o homem (ver Is.11,1-9) Criança brinca com cobra, leão pasta com vaca...)

6. O Messianismo político

Desde 1772 Polônia foi dividida entre Rússia, Prússia e Áustria. Durante quase dois séculos Polônia desapareceu do mapa da Europa. Surgiu só em novembro de 1918. Durante este tempo os países invasores faziam pressão, mas principalmente a Rússia, para tirar mesmo o espírito nacionalista do povo. Como o povo conservou a sua identidade? Graças à literatura chamada messiânica. Surgiram grandes poetas como Juliusz Slowacki, Adam Mickiewicz ou Zygmunt Krasinski, alem do romancista como Henryk Sienkiewicz, autor da novela conhecida no mundo inteiro Quo Vadis, Potop, Krzyzacy etc., sustentavam o espírito patriótico no povo. Escreviam suas poesias de forma apocalíptica, que só o polonês podia entender. Assim o povo mantinha a sua identidade nacional e a sua língua pátria, junto com as tradições religiosas. Assim passaram se séculos e a Polônia não desapareceu, não perdeu a sua identidade.
O Mesmo observou-se, já nos meus dias, no tempo de comunismo; As Igrejas foram o palco de expressão do desejo da liberdade e de nacionalidade. Muitas vezes nas preces da comunidade, os poetas e intelectuais expressavam o desejo de liberdade e animavam a luta pela liberdade.
O Cardeal Karol Wojtyla, nosso Papa bem-aventurado João Paulo II nas suas poesias e no teatro rapsódia em Cracóvia animava os seus colegas à luta pela liberdade e contra a ocupação nazista mas não com a arma na mão, mas pela poesia, e assim mantendo a esperança de que chegará o tempo da liberdade. E o tempo chegou.
Vemos aqui a força da literatura no sustento da esperança viva no povo oprimido.

7. A Nossa Missão hoje.

Surgiu a iniciativa louvável de criar a Academia de Letras aqui na terra Grapiuna. Qual é a sua missão? Mutatis mutandi, responderia parafraseando o Acadêmico da Academia Brasileira de Letras, Dom Lucas Cardeal Moreira Neves, Arcebispo de São Salvador e Primaz do Brasil, já falecido: “Sei que, como todas as Academias do mundo, de Platão para cá, também esta, se inspira no faustoso Palácio e no mítico Jardim de Academo, abrigo, cenáculo e teatro de acaloradas discussões entre os mais notáveis mestres do pensamento ático.
Mas minha pergunta pertinente é: Academia Grapiuna de Letras, que dizes de ti mesma? Ora, desde então que fui convidado e ao longo destes meses, adquiri uma convicção, que me atrevo a partilhar convosco, e acho que é o pensamento de todos nós acadêmicos de Itabuna: esta Academia, para nada dizer das outras, se define por um constante e aplicado serviço à cultura. Para isso ela nasceu e existe: como testemunha e promotora de cultura nesta região. Ainda que fosse só por isso, ela tem um compromisso com o País e com esta região grapiuna. Tem o compromisso de aproximar a sociedade “do descartável de hoje” a leitura, a literatura, a arte e assim estar sempre a serviço da cultura deste meu País e região. Nossas expressões por meio da palavra, da música ou qualquer tipo de arte, devem ser messiânicas, renovando e sustentando a esperança no povo de que os dias melhores virão.

8. Conclusão:

Terminando, Senhor Presidente, quero agradecer aos que indicaram o meu nome para tomar parte integrante da recém nascida Academia Grapiuna de Letras.
Agradeço a presença dos meus amigos e amigas que compartilham a minha e a nossa alegria deste ato tão importante.
Novamente saúdo a todos os meus irmãos e irmãs acadêmicos.


Por tudo e em tudo que Deus seja louvado.

Dom Ceslau Stanula CSsR
Bispo Diocesano de Itabuna.


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